Crítica de Filme: Trem Noturno Para Lisboa

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Uma livre adaptação do livro homônimo de Pascal Mercier, Trem Noturno Para Lisboa, o novo filme do cineasta dinamarquês Bille August, é muito mais do que um envolvente drama com pinceladas de suspense e romance. É, na verdade, um convite à reflexão em relação às escolhas que fazemos e, por fim, aonde estas nos levarão no ocaso de nossas vidas.

Raimund Gregorius (Jeremy Irons) é um entediante professor suíço de línguas antigas. Seus dias são ditados por solitárias partidas de xadrez e pelas aulas que ministra no Liceu de Berna. Ele não se deixa levar por aventuras que fujam do rumo traçado para sua vida. Contudo, em uma manhã qualquer, ao impedir que uma mulher pule da ponte, sua rotina será bruscamente alterada.

A desconhecida deixa para trás um livro. Fascinado com o que lê, página após página, ele repensa todas as suas escolhas e compreende que precisa encontrar o autor daquelas palavras. Em uma atitude antes impensável, larga tudo sem dar nenhuma satisfação e vai atrás do responsável por àquela inquietante obra, o português Amadeu de Prado (Jack Huston).

Trem_Noturno_Para_Lisboa_Meio_1Ao refazer os passos do escritor pelas empoeiradas e ensolaradas ruas de Lisboa, Gregorius descobre que as dúvidas que o atormentam, um dia, atormentaram aquele homem diferente dele em tudo, mas com uma característica comum: a consciência plena de sua insignificância perante a eternidade.

O grande mérito de Trem Noturno Para Lisboa é o uso de flashbacks para contar a história de Gregorius e Amadeu. Detalhes da vida dos protagonistas são paralelamente apresentados. Deste jeito, o público vai conhecendo, aos poucos, as dúvidas que levaram um a escrever o livro; e o outro a ficar bastante sensibilizado ao lê-lo. Realizador do ótimo “Mandela” (2007), August reafirma todo o seu talento ao prender a atenção do público como uma narrativa envolvente. Lá pelas tantas, há uma grande chance do espectador não saber mais se aquelas dúvidas são de Gregorius, de Amadeu ou dele.

O longa-metragem conta, ainda, com um excelente elenco. Encabeçada por Jeremy Irons, em seu melhor papel desde “O Mercador de Veneza” (2004), a trupe tem as participações de uma irreconhecível (mas sempre bela) Martina Gedeck, da competente (e lindíssima) Melanie Laurent e dos excepcionais veteranos Charlotte Rampling, Bruno Ganz e Christopher Lee. A fotografia de Filip Zumbrunn também é digna de elogios.

Trem_Noturno_Para_Lisboa_Meio_2O grande risco que Trem Noturno Para Lisboa corre, e isto pode afastar uma parcela considerável de espectadores, é ser confundido com um filme de autoajuda. Longe disto, pois Pascal Mercier (pseudônimo do professor de filosofia Peter Bieri) está muito mais próximo do norueguês Jostein Gaarder – que versa sobre filosofia, sentido de vida, entre outros temas – do que do brasileiro Augusto Cury, por exemplo. Portanto, dispa-se do preconceito e embarque neste comboio (como falam os portugueses) rumo ao desconhecido.

Desliguem os celulares e boa diversão.

BEM NA FITA: A direção de Bille August. A forma como a história é contada. O elenco de altíssima qualidade e a fotografia.

QUEIMOU O FILME: O fato do filme ser falado todo em inglês. Mesmo nas cenas em Portugal, há pouquíssimos diálogos em português.

FICHA TÉCNICA:
Diretor: Bille August.
Elenco: Jeremy Irons, Jack Huston, Martina Gedeck, Melanie Laurent, Tom Courtenay, August Diehl, Bruno Ganz, Charlotte Rampling, Christopher Lee, Marcos D’Almeida, Adriano Luz, Lena Olin, Burghart Klaubner e Sarah Buhlmann.
Produção: Daniel Baur, Eric Fischer, Kevin Scott Frakes e Oliver Simon.
Roteiro: Pascal Mercier, Greg Latter e Ulrich Herrmann.
Fotografia: Filip Zumbrunn.
Trilha Sonora: Annette Focks.
Duração: 111 min.
Ano: 2013.
País: EUA, Suíça, Alemanha e Portugal