CRÍTICA | ‘Black Hammer: Origens Secretas’, ou “O estranho e fantástico filhote de um cruzamento entre Astro City e Umbrella Academy…” – Blah Cultural

CRÍTICA | ‘Black Hammer: Origens Secretas’, ou “O estranho e fantástico filhote de um cruzamento entre Astro City e Umbrella Academy…”

Cara, eu odeio os nostálgicos sentimentais. As pessoas que reclamam que não existem HQs hoje em dia que sejam boas como as de 30 anos atrás, se lastimando que os roteiristas realmente bons não existem mais, que “Hoje é tudo uma merda”. Geralmente são os mesmos que repetem, como um disco quebrado, que do final dos anos 80 pra cá quase nada relevante aconteceu na música, que “Hoje é tudo uma merda”, vivendo nesse loop de negatividade, enxergando o copo meio vazio, e a parte meio cheia com água de esgoto. Mas o que anda em falta mesmo, tanto em HQs como na música, é disposição e paciência pra garimpar, procurar, pesquisar e encontrar suas pepitas. Mas parece que tem gente que prefere mesmo é ficar reclamando sobre como hoje está tudo uma merda do que fazer algo bom. Ou pelo menos, procurar alguém que faça melhor.
Quem não mete as caras e vai pesquisar coisa melhor merece isso…
Eu poderia fazer um mega postzaço indicando algumas pepitas dos anos 90 que fariam vocês verem essa década com outros olhos, demonstrando por A+B que não foi só de Vanilla IceP.O. BoxAce of BaseJordi,É o Tchan e Latino que os anos 90 foram feitos. Mas hoje não vou falar de música. A pepita do dia é uma HQ autoral do queridinho do pós 2000 pra cá, o canadense Jeff Lemire. O autor, de raízes indie, já trabalhou com super heróis por um tempo, tendo escrito o Homem-Animal para a DC, Gavião ArqueiroVelho Logan eCavaleiro da Lua na Marvel. Tendo trabalhado com essas visões tão diversas de personagens de outras editoras, é natural que Lemire tenha acabado criando seus próprios super heróis, tão únicos e ainda assim, tão reconhecíveis e referenciáveis a outros personagens clássicos, e tão bizarros quanto a situação em que estes mesmos heróis estão inseridos. Black Hammer é uma HQ da Dark Horse Comics, que foi – merecidamente – ganhadora do Eisner de 2017 de Melhor série original, mas se vocês estão pensando que vem aí mais uma Liga da Justiça genérica, podem esquecer essa possibilidade. Só posso definir Black Hammer como a cria bizarra que resultaria de uma sessão de sexo tórrida entre The Umbrella Academy eAstro City!
A HQ conta a história de sete heróis, que após salvar o mundo de um adversário terrivelmente poderoso (que lembra bastante o Darkseid, só pra deixar o leitor esperto quanto à periculosidade da criatura, já que esse é um universo ficcional novo, sem cronologia conhecida pelo leitor, e com décadas de cronologia implícita, que vamos descobrindo aos poucos, capítulo a capítulo) aparecem em uma comunidade rural, uma mistura de limbo e prisão, da qual não conseguem sair, e que eles sequer têm certeza de que encontra-se situada em nossa dimensão! Agora, funcionando como uma família disfuncional, os heróis precisam buscar uma forma de escapar deste estranho local, escondendo seus poderes da população do lugar, vivendo uma vida medíocre, além de terem que encarar seus próprios infernos pessoais.
Déjà vu.
Era de Ouro, Era de Prata, Era das Trevas…

Mas quem são os heróis de Black Hammer?

ABRAHAM SLAM: 

Um misto de Capitão América e Batman, Abraham Slam já era um veterano prestes a se aposentar quando ocorreu o evento que os lançou nesse limbo. Slam é o único humano comum, sem nenhum tipo de poder, e também o único a se sentir contente na atual situação, vivendo uma vida “normal”. Pena que seus companheiros não concordam…

MENINA DE OURO: 

Essa é fácil, não? A Menina de Ouro é uma alusão óbvia  à Família Marvel (Shazam para os íntimos) e à família Miracleman, é claro (que já era uma alusão aos Shazam), com direito a palavra mágica de transformação e tudo o mais. O problema é que na atual situação ela não envelhece, sendo uma mulher adulta no corpo de uma menina de 9 anos, o que, como se pode imaginar, rende muitos problemas. ZAFRAM! 

BARBALIEN: 

Barbalien é um nativo de Marte que veio para a Terra em uma missão diplomática que deu errado, e é a mescla entre o Caçador de Marte e o Guerreiro, ambos da DC. Mesmo antes do confinamento e perfeitamente disfarçado entre os humanos, o marciano tem seus segredos e se sente terrivelmente deslocado, por não poder ser quem ele realmente é. E isso em mais de um sentido…

 
CORONEL WEIRD: 

Um astronauta que se envolveu em um acidente no espaço, o Coronel Weird é um mix entre Adam Strange, o aventureiro cósmico da DC Comics, e o Doutor Estranho, da Marvel, circulando em uma dimensão estranha conhecida como Metazona. Weird está sempre transitando entre a Metazona e o local onde ele e seus companheiros estão cativos e não vivencia tempo e espaço como nós: Ele transita por momentos aleatórios do passado e do futuro, e parece saber coisas que ainda nem imaginamos. Claro que uma experiência assim faz com que a pessoa não seja totalmente sã… Coronel Weird tem uma espécie de sidekick robô, a sentimental Talkie Walkie.

 

MADAME LIBÉLULA: 

Madame Libélula tem poderes de origem mística, e lembra um cruzamento entre o Guardião da Cripta, das antigas HQs de terror da EC Comics, e a Ravena, dos Novos Titãs, que sempre tinha problemas com a perda de controle de seus poderes, causando  problemas tanto quanto resolvendo-os.

BLACK HAMMER:

Falecido. Ainda não sabemos exatamente como aconteceu, mas foi seu sacrifício que impediu nosso mundo de ser destruído pelo terrível Antideus.

O tom em Black Hammer é referencial o tempo inteiro, mais ou menos como vemos em Astro City, onde muitas histórias já aconteceram, mas ainda não foram apresentadas a nós, leitores. A sensação é a de existirem muitas lacunas a serem preenchidas, então aguardemos os próximos volumes para essa colcha de retalhos se expandir…

Sobre a arte de Dean Ormston, só posso dizer que estou impressionado! O desenhista melhorou bastante desde a época em que desenhava as mensais de Os Livros da Magia, da Vertigo. O traço de Ormston, bem como suas composições de páginas evoluíram muito dos anos 90 para cá e isso assentou muito bem em Black Hammer. Também integra a equipe criativa o lendário colorista Dave Stewart, que já ganhou nove prêmios Eisner, é um veterano dos primórdios da Dark Horse, e já trabalhou em Hellboy, Conan, The Goon, The Umbrella Academy, entre muitos muitos muitos outros títulos.

Fichas de personagens não aproveitados. Bateu nostalgia das fichas nos formatinhos da Abril…
Esboços de Dean Ormston

Este primeiro volume, Black Hammer: Origens secretas, reúne as primeiras seis edições originais e conta ainda com um posfácio do Lemire explicando a concepção e execução da HQ, fichas de perfis da construção de personagens e esboços originais de Dean Ormston. Eu devo confessar que estava preocupado com a cara desse encadernado, já que a editora Intrínseca não tem muita experiência em publicar HQs. Pensei: “Poha, lá vem mais um gibi até que bacana, mas em formato paraguaio, com tradução ruim e papel pior ainda…”. Estou feliz em descobrir que estou errado em tudo: O encadernado da Intrínseca é em formato americano, papel couché, todos os extras da edição americana, sem cortes. O trabalho da Intrínseca aqui surpreendeu muito, e positivamente! Essa edição está no padrão da Panini. Digo, o padrão da Panini quando acerta…

Momento Steve Ditko!
Mais um déjà vu do bom aqui! Precisa explicar qual é essa referência???
Coloque Cleyton na sua história, e não tem como errar!

Essa HQ vai acertar em cheio quem curte títulos como Patrulha do DestinoAstro City ou Umbrella Academy. Equipes de super heróis fora do padrão apolíneo-perfeitão-ianque, personagens sofrendo com problemas bem palpáveis e realistas, ao mesmo tempo em que precisam enfrentar ameaças surreais. Se vocês têm preguiça de procurar alguma nova HQ para ler, aceitem essa humilde sugestão. E aproveitando, se quiserem uma sugestão de música também, posso afirmar que esse artista ai embaixo foi o melhor e mais completo dos anos 90. Viu como não é difícil garimpar ouro puro????

Arte de Fábio Moon

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