CRÍTICA | ’78/52′ expõe as percepções da icônica cena do chuveiro em Psicose a partir da visão de especialistas

Alfred Hitchcock ocupa na mente da crítica cinematográfica um posto invejável. Este diretor, produtor, roteirista e até figurante de seus próprios filmes foi dono de uma filmografia composta de nada mais, nada menos do que 81 produções. E isso certamente não foi um de seus maiores trunfos.

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O suspense agoniante era o tom de seu imaginário. Nunca até então um cineasta foi capaz de manipular de maneira tão competente seu gênero através de, acima de tudo, um inigualável roteiro. Nas palavras de Jean-Luc Godard, em seu Introduction à la méthode d’Alfred Hitchcock, o diretor “[…] triunfou onde lá fracassaram: Alexandre, Júlio César e Napoleão. Ter na mão o controle do universo.”

Alexandre O. Philippe expõe nesta obra documentária intitulada 78/52  as mais minuciosas percepções da icônica cena do assassinato de Marion Crane (Janet Leigh) no chuveiro em Psicose (1960) a partir da visão de especialistas que, em 78 cortes e 52 segundos, foi capaz de redirecionar das mais variadas maneiras os rumos da sétima arte.

Do ponto de vista de marketing, Hitch, dono de um apuradíssimo tino para negócios, conseguiu driblar a crise financeira da época adotando estratégias inovadoras e corajosas. Primeiramente, decide não exibir Psicose para críticos e especialistas, o que era considerado uma tradição pela indústria, a fim de que o próprio público determinasse seu próprio veredito. Exigia também que todas as salas exibidoras seguissem a ordem de que “ninguém, absolutamente ninguém, será admitido no cinema após o início de cada sessão de Psicose”, além de grandes cartazes com sua figura e auto-falantes do lado de fora alertando a mensagem e pedindo à todos também ironicamente que “não contém o final do filme, é o único que temos”. Além disso, produziu 3 trailers, no qual um deles é um tour conduzido pelo mestre nos ambientes encenados na mansão Bates. Ele expõe tudo, só que de maneira em que deixa o espectador ainda mais ansioso por apresentar diversas sugestões e deixar informações inacabadas, como por exemplo: “este quadro têm grande significado, porque… hum, vamos ver a cabine número um.”

Analisando o ponto de vista histórico, sua contribuição para a linguagem de comportamento da época foi bastante frutífera. O cinema não costumava experimentar agir tão sensivelmente sobre suas testemunhas. Essa experimentação vai muito além das criativas técnicas publicitárias. O roteiro lida com temas sensíveis e raramente representados como a vulnerabilidade do papel materno na irretocável família nuclear americana; o complexo de Édipo; a ironia a respeito da ganância na cena em que Norman (Anthony Perkins) pega o rolo de jornal embrulhado com dólares roubados e deposita no carro junto à própria vítima no momento de seu intencional desaparecimento; e, talvez o mais visceral: na cena do chuveiro. Ele consegue nos inserir completamente na situação da moça e, logo depois, no papel de testemunhas ausentes – não podemos fazer nada senão gritar.

A partir dos sorrisos e da expressão acalmadora da personagem em seu momento de mais profunda intimidade, assistimos a uma série de acontecimentos que vão tornando essa vivacidade inteiramente destruída.

Logo de início, vemos em primeiro plano a “face” do chuveiro, como se  esse estivesse imóvel desde o início observando tudo.

Assim como em Disque M para Matar (1956) e em outros filmes de Alfred, a informação nos é dada antes do acontecimento. “Essa é a diferença entre susto e suspense” como dito em 78/52.

Chegado o indivíduo e aberta a divisória entre ambos, a áspera e discordante Prelude de Bernard Herrmann descarrega toda a tensão acumulada no público e o ápice do horror é exposto no grito captado pela boca da atriz.

Podemos nos sentir encarnados na mulher por justamente nada nos ser mostrado explicitamente; tudo é sugestivo, não há exposição de esfaqueamentos. “O real terror aqui está no fato de você juntar as peças na sua cabeça” como entendido pelo crítico de cinema e diretor brasiliense Tiago Belloti. A dor e o sofrimento são negados pela tela, sendo assim, passível de ser absorvido por quem vê.

Após a tomada onde a mão sugere sua vã tentativa de continuar na luta de continuar viva, os cortes proporcionam a mais inventiva alusão a partir dos elementos de cena: sangue correndo pela água; corte novamente para o chuveiro, o qual viu tudo e se mantém da maneira como se encontrava – a personificação do objeto; e, finalmente, o ralo da banheira em encontro ao olhar da, agora, cadáver. Sob uma análise mais filosófica, a corrente de sangue (morte) e a água (vida) seria absorvida pelo símbolo do do círculo (cosmos, infinito) como decorrente da luta dos opostos: vida e morte, frio e quente, a oposição, o devir.

A inventividade e maestria com que Hitch consegue nos aprisionar em seu mundo – e isso literalmente se nos recordarmos de 1960 – a fim de nos fazer sair do lugar comum, da zona de conforto que nos foi herdada, talvez seja sua maior demonstração de genialidade. Por vezes, optamos essa realidade pela segurança e comodidade, entretanto, a insegurança e a instabilidade são elementares contradições da natureza humana, e a contradição é o princípio básico para a transformação: o devir, o infinito, a evolução do ser humano.

TRAILER:

FOTOS:

FICHA TÉCNICA:

Título original: 78/52
Direção: Alexandre O. Philippe
Elenco: Jamie Lee Curtis, Guillermo del Toro, Elijah Wood mais
Gênero: Documentário
Nacionalidade: Estados Unidos
Ano: 2017
Duração: 91 min.
Classificação: a definir

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Estudante de publicidade e futuro professor em estudos da comunicação, tecladista de uma banda alternativa em desenvolvimento e alguém que procura pensar sobre a vida e seus pertences através de filmes.