CRÍTICA | ‘Beasts of Burden – Rituais Animais’, de Evan Dorkin & Jill Thompson, ou “O Stranger Things dos pets!” – Blah Cultural

CRÍTICA | ‘Beasts of Burden – Rituais Animais’, de Evan Dorkin & Jill Thompson, ou “O Stranger Things dos pets!”

Um grupo de animais de estimação de uma vizinhança suburbana aparentemente pacata, reunidos para investigar e resolver ocorrências sinistras e sobrenaturais. Premissa bobinha, né? Eu não perderia meu tempo lendo isso. Ok, tem a arte da diva Jill Thompson, mas mesmo assim não parece ser pra mim, burro velho que sou. Até que li em algum lugar que essa série, da editora Dark Horse, faria um crossover com o Hellboy! Aí, meu coração de verme fanboy (pleonasmo?) bateu mais forte e finalmente prestei atenção em Beasts of Burden! Bom, a tal história com a participação do Hellboy não apareceu nesse primeiro volume, mas não quer dizer que eu tenha me arrependido: Beasts of Burden é um quadrinho soturno, dark, tenso e com momentos de partir o coração e encher os olhos de lágrimas. O mote de “Bichinhos-fofinhos-lutando-contra-perigos” aqui é tão infantil quanto o Rover Red Charlie, de Garth Ennis ou WE3, da dupla Grant Morrison/Frank Quitely. E quem conhece essas HQs sabe que não é gibi pra deixar dando mole pro seu sobrinho de 8 anos pegar e ler hehehe.

 
WE3. Arte de Frank Quitely

 

 
Arte de Jill Thompson

Beasts of Burden é escrita pelo quadrinista indie Evan Dorkin, que é famoso lá fora pela sua Milk and Cheese Comics, uma dupla antropomórfica composta por…. um pedaço de queijo e uma caixinha de leite(!!!), que odeiam a humanidade. Além disso, Dorkin trabalhou aqui e ali na Marvel e na DC. Pouca coisa. O cara é indie até a medula, e é um autor que merece mais atenção por parte das editoras aqui no Brasil. Já Jill Thompson dispensa apresentações. Conhecida de longa data dos leitores brasileiros, a Sra. Brian Azzarello tem muita coisa publicada pela DC Comics, e já fez a arte de SandmanOs Invisíveis,Orquídea Negra e Mulher Maravilha. Uma ótima equipe criativa.

 
Arte de Jill Thompson

Na HQ, acompanhamos um pequeno grupo de animais de estimação, composto de cinco cães e um gato, que notam eventos estranhos ocorrendo na vizinhança e são forçados a se unir e tomar parte no combate a lobisomens, fantasmas, deuses egípcios malévolos, cães zumbis e demônios em forma de sapos gigantes. As histórias, apesar de curtas e fechadas em si, possuem um pano de fundo que costura todos esses eventos, aparentemente aleatórios, em algo maior, mas que ainda não se revelou neste primeiro volume. E aquela impressão que eu comentei lá em cima, sobre tudo ser pueril ou vago demais? esqueçam: Dorkin e Thompson constroem um mundo até que complexo e bastante rico, onde o sobrenatural se faz presente o tempo todo. Mas nem só de terror vive essa HQ: existem muitos momentos de humor, momentos de aventura e momentos de sensibilidade de rasgar o coração. Leiam a história da cachorra que pede ajuda aos nossos heróis quadrúpedes e vocês vão saber do que estou falando. Impossível não dar uma pausa para secar as lágrimas antes de avançar para a próxima história do encadernado…

 
Homenagem dupla a Stephen King. Quem aí lembra de “Cujo” e “O Cemitério”???

O desenvolvimento de personagens é bem bacana: cada um dos bichos possui uma personalidade distinta e bem definida, e Dorkin aproveita essa diversidade de humor e caráter para criar uma interação bem natural, e a belíssima arte aquarelada de Thompson complementa isso maravilhosamente, com a expressividade que ela imprime a cada animal.

Essa edição nacional, publicada pela Pipoca & Nanquim Editora, vem caprichada com o esmero de sempre: Capa dura, detalhes em verniz, papel de alta gramatura no miolo, formato grande (27,8 x 19,8cm). Além de contar com várias páginas de extras, contendo esboços, pin ups, capas alternativas e tal. Podem me chamar de rabugento, mas se o excesso de luxo da edição impacta demais no preço, não fica tão interessante adquirir a HQ, ainda mais em se tratando de uma série contínua, o que envolve começar uma nova coleção, que obrigue o leitor a comprar volumes periodicamente. Não levem a mal, consegui meu exemplar numa promoção por um preço que me deixou bem satisfeito, ainda mais porque já estava até me conformando em deixar Beasts of Burden passar. Mas eu me contentaria do mesmo jeito com uma edição mais simples, em capa cartonada e sem extras mesmo. Na minha opinião, poderia ser menos luxuosa, e consequentemente, mais acessível. Mas que ficou linda, ficou! Parabéns aos envolvidos rs.

 
Ilustração de Camilo Solano

Dorkin conseguiu criar uma ótima ambientação e um belo fiapo de cronologia e desenvolvimento de personagens em um punhado de histórias, além do cliffhanger bacana no final desse primeiro encadernado. Definitivamente, volto pra uma nova visita em Burden Hill se o Pipoca & Nanquim prosseguir com a publicação de Beasts of Burden, afinal, tô esperando o vermelhão aparecer pra brincar com a bicharada…




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