Crítica | Damien Rice, honesto como nenhum outro

Como faço parte da equipe audiovisual do BLAH CULTURAL, me sinto em um campo seguro para falar sobre planos e estrutura narrativa. Música, por outro lado, é algo que mais sinto do que raciocino. Mas, afinal, não é isso que Damien Rice transmite?

Comecei a seguir o trabalho do Damien depois de escutar “The Blowers Daughter” no filme “Closer – Perto Demais” (bem sei, o jeito mais clichê de ter o primeiro contato com seu trabalho). Me apaixonei e pesquisei pela trilha sonora, eis que chego nesse irlandês revoltadamente romântico, e fico onde me achei.

Depois de “O” e “9”, chega “My Favorite Faded Fantasy”, mais melancólico que nunca, sem a presença de Lisa Hannigan.

O show em si foi uma boa mistura dos três álbuns. Começando por “Volcano”, uma de suas musicas mais conhecidas, aqueceu o publico. A plateia fanática cantarolava junto todas canção que ele propunha no palco sem setlist definida, sua marca registrada. Damien inclusive se arriscou com uma música inédita, mas esqueceu a letra no meio, pediu desculpas e cantarolou, o improviso foi ainda melhor do que se ele a soubesse cor.

Fã empolgado cantando com Damien Rice (Foto: Reprodução)

Fã empolgado cantando com Damien Rice (Foto: Reprodução)

Quando quer que alguém falasse algo mais alto para Damien escutar, ele respondia. Ele parou para afinar um instrumento e um fã gritou “sing a song” (cante uma canção, em tradução livre) e ele respondeu “that’s what I’m doing” (é isso o que eu estou fazendo, em tradução livre), o que ele não esperava é que o compositor de “The Box” o convidasse para subir ao palco. Damien cantou a primeira parte de “Amie” e o fã, entre embaraço e empolgação, terminou a canção que cita o livro francês  ‘Story of O’.

Damien Rice tem mais faces: é um storyteller nato. Entre uma música e outra contava casos que se sucederam com ele, como ter arranhado uma mercedes benz por achar que pertencia a um inglês, quando ele tinha por volta de sete anos. Teve história de esperma, sim, teve história de romance, claro!

Um espetáculo a parte foi Damien tocando vários instrumentos, um seguido do outro em “It Takes A Lot To Know A Man”, a luz acompanhava a energia do cantor e contagiava a platéia. Ainda cantou “Cannonball” sem o microfone, e a voz ganhou o Vivo Rio.

Damien Rice pós-show (Foto: Reprodução)

Damien Rice pós-show (Foto: Reprodução)

Certo momento, ele fez um pequeno intervalo e se retirou, o que levou a plateia aos gritos pedindo por mais. Verdade seja dita, o irlandês ganha o palco sozinho trazendo para perto de si o público. É um showman por si só. Damien não precisa fazer um espetáculo sensacionalista, ele leva suas composições, sua alma para o palco, e isso basta. E muito.

Para os fãs que, como eu, leram a notícia sobre seu aftershow do lado de fora do teatro em Manaus, saíram da sala e foram direto para a área de onde saem os artistas. Ficamos esperando o cantor sair por uns vinte minutos, ele ia e vinha, ia e vinha, sempre que abria a porta por trás das grades, os fãs se acutelavam para enxergar o músico. Então, ele finalmente, veio em nossa direção, apertando as mãos de todos que conseguiram um espaço na grade de ferro. Damien Rice saiu tranquilamente, subiu em um muro onde já estavam algumas pessoas e escutou os pedidos vindos aos berros de fãs que ainda se curavam da abstinência de oito anos da presença do cantor no Rio. Ele cantou “Rootles Tree”, “I Don’t Want To Change You” e “Me My Yoke and I”, essa última, tocada por um fã em seu violão.

Quem teve a sorte de ter esse show particular saiu ainda mais encantado com a humildade de um cantor que já vendeu milhões de álbuns, teve suas músicas na trilha sonora de diversos filmes, frequenta as rodas de celebridades musicais e cinematográficas, mas parece não deixar escapar sua essência, não deixa fugir de si aquele garoto de 26 anos que largou a Irlanda pra tocar suas músicas por uns trocados nas ruas da Itália.

Confira abaixo vídeos do show (gentilmente cedidos pela internauta Renata Carvalho) e, logo a seguir, o setlist completo:

SETLIST:

Volcano
I Remember
The Greatest Bastard
The Professor & La Fille Danse
Trusty and True
Amie
Woman Like a Man
The Box
9 Crimes
Truth Is Not Enough
Delicate
Cannonball
It Takes a Lot to Know a Man

BIS:

Grey Room
Play Video
Elephant
Play Video
My Favourite Faded Fantasy
Play Video
The Blower’s Daughter

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Sua vida parece ser um eterno road movie. Na estrada, descobriu seu amor pelo cinema: cursou a New York Film Academy, em 2012, no ano seguinte entrou para a Escola de Cinema Darcy Ribeiro e agora está prestes a se formar em publicidade. Também escreve sobre assuntos variados em seu blog pessoal oautorretrato.blogspot.com.br Apenas espera chegar ao final dessa viagem se conhecendo um pouco melhor.