HomeCinemaCRÍTICA | A boa ficção científica passa bem longe de ‘O Espaço Entre Nós’

CRÍTICA | A boa ficção científica passa bem longe de ‘O Espaço Entre Nós’

Apenas para reforçar, a boa ficção científica fala do futuro como uma crítica ao presente, algo que passa bem longe de O Espaço Entre Nós (The Space Between Us). Ao preferir se concentrar na relação entre dois jovens distantes, a produção se perde ao não abrir o leque da grande dificuldade que um humano teria se tivesse pouco contato com a própria raça. Além de ser piegas, não existe muita dificuldade na jornada do protagonista, com uma conveniência atrás da outra, e pouco se importa no desenvolvimento de seus personagens. A escolha de fazer um romance adolescente ao invés de um filme questionador é o grande problema do filme, ainda mais quando percebemos que havia espaço para os dois temas.

A colonização de Marte é um plano de fundo que exacerba um tema romântico que vem desde, pelo menos, Rapunzel: a bela jovem praticamente inalcançável. Com o detalhe que para Gardner (Butterfield), Tulsa (Robertson) está a 230 milhões de quilômetros dele. Sem explicar muito bem como os dois se conheceram pela internet – ou algo parecido no ano de 2034 – a história de Loeb, Schill e Lewis se concentra pura e simplesmente no romance, deixando de lado qualquer desenvolvimento de personagens (a pobre Tulsa nem sobrenome tem) para falar de amor. É tão reducionista que a produção confirma aquele clichê que tudo precisa ir, eventualmente, para o espaço (exemplos vão desde James Bond até Jason Vorhees). Até o amor, aparentemente.

Para entendermos como a parte da ciência é deixada de lado rapidamente e só analisarmos os arcos da história. O primeiro ato é cheio de questões em relação ao desafio que seria trazer Gardner de volta por causa das peculiaridades de seu nascimento (a gestação em Zero-G e ter crescido num planeta com menor gravidade que a Terra), questões práticas que são abandonadas a partir da segunda parte. Por exemplo, a comunicação com a Terra é feita de maneira instantânea, sem levar em conta a distância entre os planetas – os sinais de rádio demorariam de 4 a 20 minutos para chegar aqui. E isso é um problema, pois no começo a história se empolga com os desafios da viagem, bem apontados pelo discurso de Nathaniel Shepherd (Oldman), o que abraça as dificuldades da viagem. Ignorar fatos conhecidos hoje é sim péssimo para história, pois ela não se leva a sério.

Vem então a facilidade que a narrativa faz para a volta de Gardner. Isso se reflete desde a recuperação da cirurgia que possibilitará a viagem para a Terra, como ele se adapta em território desconhecido e na sua aceitação na sociedade. Apesar de a história justificar os passos, Gardner não tem obstáculo nenhum para encontrar Tulsa: seja na ajuda de estranhos, no fato dele usar dinheiro que encontrou na carteira da falecida mãe (dezesseis anos depois) que usou para pagar uma passagem de ônibus ou como ele consegue chegar até a crush sem nenhum tipo de indicação ou aparato tecnológico – pelo menos aparentemente; se havia, foi omitido na história.

A graça do filme, e o que impede a produção ser um completo desastre, são as situações que Gardner se encontra. Já que na Terra para ele tudo é novidade, há um tanto de risos como ele lida com interações sociais, com a própria Tulsa e o jeito que ele observa coisas menores – numa cena muito interessante, Gardner observa uma pequena lagarta enquanto Tulsa se impressiona mais com os canyons que, por sua coloração avermelhada, lembrava demais o jovem a sua casa marciana – ou se impressiona com a nossa comida. Ainda assim há exageros, como na cena que Gardner se assusta com a visão de um cavalo.

Em geral, o filme é mais feito para ser absorvido do que refletido. E tão fácil quanto os roubos que Tulsa consegue fazer dos carros que ajudam os dois na jornada de Gardner para descobrir o paradeiro de seu suposto pai aqui na Terra, enquanto corre o discurso do encontro de dois lados muito opostos e que o amor vence tudo com um plano de fundo que apenas pincela a ficção científica numa produção que trata o público-alvo adolescente como se tivessem pouca capacidade para entender uma trama mais complexa. Tudo isso embalada com músicas pop que fazem parecerem mais clipes que cenas de cinema.

O Espaço Entre Nós é tão perdido quanto o CEO da empresa Genesis, sempre se perguntando por que Gardner está fazendo o que faz – nunca passou pela cabeça dele que estava lidando com um adolescente? Não é só por negar a ficção científica, porque se retirar esse elemento – Marte, viagens interplanetárias – que a história continua com os mesmos problemas e clichês. Cheslom e os roteiristas queriam fazer uma homenagem a Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, 1987, Win Wenders), mas o resultado é aquele presente que você compra numa viagem para fazer decoração, mas quando chegar em casa percebe que ele não se encaixa em lugar nenhum e que você terá vergonha de apresentar aos outros.

*Texto publicado originalmente no site “UM TIGRE NO CINEMA”, parceiro do BLAH CULTURAL

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FICHA TÉCNICA:

Título original: The space between us
Direção: Peter Chelsom
Elenco: Asa Butterfield, Britt Robertson, Carla Gugino, Gary Oldman
Distribuição: Diamond Films
Data de estreia: qui, 30/03/17
País: Estados Unidos
Gênero: ficção científica
Ano de produção: 2016
Classificação: 12 anos

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