HomeCinemaCRÍTICA | ‘Por Trás do Céu’ é um filme de conteúdo universal e profundamente humano

CRÍTICA | ‘Por Trás do Céu’ é um filme de conteúdo universal e profundamente humano

O cinema é uma arte que dá a todos e que recebe de todos, tem a imagem, tem a escrita, tem a música, tem a presença física do ator e a arquitetura, congrega em si mesmo muitas artes. Talvez um dos grandes feitos de Caio Sóh em Por Trás do Céu tenha sido executar todas elas com maestria. O filme é esteticamente bem trabalhado; possui uma fotografia belíssima com a presença de tons pastéis e enquadramentos que valorizam o céu; um elenco imprescindível composto por atores consagrados; uma trilha sonora envolvente e um enredo repleto de poesia.

Caio foge a vulgaridade e ao lugar comum ao contar uma história que se passa no Sertão nordestino sem que a questão da fome e da seca sejam as protagonistas. O tocante do filme é a solidão, a que todos carregamos indepente de classe, gênero e de onde pertencemos.

O filme narra a história de Aparecida (Nathalia Dill), uma jovem sonhadora que vive em cima de uma pedra no interior do Sertão Nordestino e que deseja, a todo custo, mudar o rumo de sua vida e partir para a cidade. Sua única companhia é seu marido Edvaldo (Emílio Orciollo Neto) que apegado a mágoas do passado não deseja deixar a terra onde cresceu e nasceu.

Os personagens vão saindo das sombras, de contornos pouco definidos e sem razão aparente, tudo vai sendo sugerido e contado aos poucos através da intercalação entre presente e passado. As primeiras cenas são compostas por pouquíssimos diálogos, Edvaldo pouco ou nada fala enquanto Aparecida vive em seu mundo interior, conversando com o céu, questionando Deus por estar “presa” àquela terra e criando coisas que advém de sua imaginação fértil.

A configuração muda com a visita de Micuim (Renato Góes), um velho amigo do casal. Ele traz coisas que jamais foram vistas por Aparecida e por Edvaldo, como uma revista e um chocolate e diz aos amigos que a cidade é um lugar mágico, que em toda esquina há coisas diferentes que as pessoas inventam para serem felizes. A personagem que antes já tinha esse sonho, convenceu-se de vez de que deveria sair daquele local, mas seu marido era irredutível na ideia de permanecer onde estavam.

Nesse ponto, Caio Sóh explora a ideia de realidade e de sonho. De um lado há uma mulher sonhadora, muitas vezes vista como louca e beirando a infantilidade e de outro, o marido com o princípio de realidade. O que o filme nos ensina, o que é admirável, é que é muito difícil separar o sonho da realidade. Nenhum projeto de vida é feito sem a presença de um sonho e é isso que Aparecida anseia, ter um futuro que a tire da solidão e da monotonia daquele lugar inóspito e deserto. É uma personagem que nos inspira, será que ainda somos capazes de sonhar ou preferimos ficar apegados a realidade e com os pés no chão? Onde anda nosso idealismo?

Na segunda metade do longa uma nova personagem surge, trata-se de Valquíria (Paula Burlamaqui) , uma prostituta que vive na cidade e que ao fugir de seu cafetão acaba chegando até as proximidades do casebre de Aparecida e Edvaldo.

Valquíria é uma mulher amargurada, sem esperanças e sem expectativas na vida. A primeira impressão que tem de Aparecida é de que é uma louca sem noção, mas aos poucos vai sendo contagiada pelo espírito sonhador da jovem e quebra a falta de diálogo que existe entre o casal. Aos poucos vai se criando um equilíbrio entre a perspectiva realista de Edvaldo e a ilusão de Aparecida, antes da chegada da prostituta os dois eram inflexíveis em suas opiniões e nesse aspecto, o filme nos mostra o quão difícil é construir um diálogo dessa forma, realidade que vemos em nosso dia a dia na política com a forte polarização e em vários outros aspectos de nossa vida. Por Trás do Céu nos ensina a fazer um certo reconhecimento entre imaginação e realidade para que possamos construir uma ponte de troca, de conhecimento.

O olhar microscópico sobre essas quatro pessoas, sobre esse lugar, confere ao filme um tom universal de conteúdo profundamente humano, cujo enredo diz respeito a cada um dos sete bilhões de pessoas que hoje habitam o planeta, ao explorar as sombras e os fantasmas que habitam as profundezas de cada pessoa.

Escrever sobre Por Trás do Céu é adentrar um universo único, o da imaginação. O filme é de grande beleza, traz elementos que vão além do compreensível, narra com humor e encanto a crise dos sonhos, o choque da realidade transitando, dessa forma, entre ideal e o real. Trata-se de uma obra repleta de poesia e assombro linguístico.

FICHA TÉCNICA:

Direção: Caio Sóh
Elenco: Emílo Orciollo Neto, Nathalia Dill, Renato Góes

Distribuição: Pandora Filmes

Data de estreia: qui, 06/04/17
País: Brasil
Gênero: drama
Ano de produção: 2017
Duração: 104 minutos

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Estudante de jornalismo. Apaixonada por literatura,teatro, fotografia e especialmente pela sétima arte.