HomeMúsicaCrítica MusicalResenha | A quantas anda Tom Zé – ritmo sem idade, ainda enfrenta e desafia

Resenha | A quantas anda Tom Zé – ritmo sem idade, ainda enfrenta e desafia

Tom Zé não tem idade nem lugar – é um menino que nem se pode dizer num corpo de velho, tamanha energia carrega da vida para o palco, ou do palco pra vida.

Aos 78 anos, este velho menino vem lançar no Circo Voador seu “Vira-Lata na Via Láctea”, um disco onde recupera ainda mais a juventude, mostrando-se sempre atualíssimo, falando com uma incrível lucidez sobre o cenário político e a evolução tecnológica nos quais estamos inseridos – bem como já passeava por todos esses assuntos no começo de sua carreira, no final da década de 60.

Tom Zé surgiu grandioso, na última sexta-feira (17), no palco com os versos já conhecidos pelos “circenses, cirqueiros e circunstantes” (como chamou o mestre). “Foi no Circo Voador / Voador, Voador / Que eu achei o meu amor / Meu amor, meu amor / Quando o Circo bem me quer / Bem me quer, bem me quer / Manda chamar o Tom Zé / O Tom Zé, o Tom Zé!”. E, junto dele, a incrível banda foi apresentada logo de início. Daniel Maia, guitarrista e produtor, claramente o outro braço do cantor, já que seu braço direito é o sempre presente e insubstituível; Jarbas Mariz; Rogério Bastos, o baterista, divertidamente chamado, também, de Rogério Do Prato, numa lembrança ao grande Rogério Duprat; e a musa, a deusa, a Vênus da banda: Cristina Carneiro, nos teclados. Além do baixista Felipe Alves, que deu um show à parte na canção Geração Y.

Foi com uma música feita em parceria com Rita Lee, gravada pelos Mutantes em 1969, que o músico abriu o baile, em suas palavras, “para acabar de reunir a turma”: 2001 agarrou toda a energia dos dançantes diante do palco. Logo em seguida veio a já citada Geração Y, com um tom um pouco mais sério, incorporando a infelicidade comentada na música, diante da “tragédia que desaba sobre nós”, em nossos iPads, iPods, iPhones… Mas este astral um pouco mais baixo é logo superado com Banca de Jornal, gravada com Criolo, e que traz os nomes das tão comentadas revistas e jornais, mantendo o fundo político presente sobretudo no último LP e neste novo disco de Tom Zé.

Em seguida vem a genial Cabeça de Aluguel, numa melodia que lembra o estilo tropicalista, gravada junto à banda O Terno, já familiarizada com o artista que, ao tocar esta canção, lembra que trabalhou como jornalista, em 1959. E então vem a grande sequência da noite, que empolga o público e levanta todas as vozes, do jeito que Tom Zé gosta. Vem o grande hit do disco, Salva Humanidade, seguida pelos clássicos Hein? e , esta última gravada por Zélia Duncan, lembrada pelo compositor, que diz que o grande sucesso da canção veio somente com a gravação da cantora.

Ao lembrar a essência nordestina, dizendo que lá se tem medo de tudo, da guerra, de Lampião, a banda traz O Discurso do Papa (de fato proferido pelo Papa em 26/05/2013) mostrando, mais uma vez, o destaque dado pelo artista à política atual. Seguindo nesta linha, vem a já conhecida pelo EP anterior, Papa Francisco. Eis aqui o momento auge do carisma interminável de Tom Zé: em meio às já tradicionais calcinhas jogadas no palco, o artista toma uma às mãos e a coloca de modo que “a parte mais importante”, em suas palavras, “fique no coração”, e verbaliza o que já sentíamos: “Isso aqui é poesia! Não pensaram que eu fosse um poeta dessa qualidade!”. Pensamos, Tom. Sempre soubemos. Poeta, intelectual e humilde, como fica claro quando emenda uma parceira com Augusto de Campos, e diz que, “no Rio de Janeiro, lugar de cantar música intelectual não é no Theatro Municipal, é aqui!”

Diante daquele público já vidrado, a banda arrebata todos os corações com uma das mais belas canções já escritas em nosso país: Augusta, Angélica e Consolação, rememorando a doçura apaixonada da época de Todos os Olhos e Estudando o Samba, colocando o amor no meio da política desta outra fase do artista, que segue o baile com Esquerda, Grana e Direita, enriquecida pela citação de Paulo Freire, lembrando a bagagem cultural que ganhamos ao acompanharmos este grande artista da música brasileira.

O show se encerra com a clássica Ogodô, seguida pela delirante Xique-Xique, que leva toda a plateia ao delírio. A banda se retira, mas em meio a tanta energia o bis foi mais que desejado: e muito bem realizado, com Vai! (Menina, amanhã de manhã), Abacaxi de Irará, pois claramente não podia faltar uma menção à cidade natal do artista, e a aclamada Jimi Renda-se. No fim deste show de quase 2 horas, a banda se despede ovacionada, com seu, nosso mestre, encantado pela plateia que retribuía com demasiada exaltação. Se no último show do artista no Circo Voador, em 2013, o público deixou algo a desejar ao artista, estejamos certos do perdão: numa troca mútua de energia e amor, a noite de sexta-feira se realizou na mais querida lona carioca de maneira inesquecível, tenho certeza que para todos nós. Vida longa, Tom Zé!

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Carolina não acredita em idade, cursa Letras na UNIRIO e é inteira coração, boca e ouvidos. Basicamente só sai pra contrair o de dentro do peito com os amigos e seguir a trilha do Circo Voador. Por isso escreve pro Blah, pra contar desse barulho junto, que do barulho sozinha já rabisca em poemas no seu blog: obarulhodeserso.blogspot.com.br