HomeDestaquesRESENHA | NAMELESS, de Grant Morrison e Chris Burnham, ou ‘O Manifesto Feminista de Mr. Morrison’

RESENHA | NAMELESS, de Grant Morrison e Chris Burnham, ou ‘O Manifesto Feminista de Mr. Morrison’

Ler uma história em quadrinhos de Grant Morrison nem sempre é algo fácil. Esse roteirista escocês, conhecido por fazer parte da Invasão Britânica de roteiristas dos anos 80, raramente faz concessões à indústria de quadrinhos para formatar suas histórias, tornando-as mais acessíveis e palatáveis (leia-se mastigadas e superficiais) para o grande público, preferindo, ao invés disso andar na contramão: forçando a fruição de histórias em quadrinhos a patamares não alcançados antes, utilizando recursos estilísticos de narrativa ousados e originais, quase como se quisesse formar novas gerações de leitores com HQs ainda mais estranhas do que as que ele próprio leu quando mais jovem. Morrison escreve como se quisesse, sozinho, derrubar todo o paradigma de como fazer (e ler) quadrinhos. Porém, uma vez que você se ajusta à frequência vibracional do autor, suas histórias podem ser tão divertidas e recompensadoras quanto qualquer boa HQ que você já tenha lido e que não tenha as toneladas de loucura e (aparente) caos que o carequinha utiliza para veicular suas ideias.

 
“Espelho espelho meu, existe mago mais foda que eu?”, pergunta Morrison. O espelho, sem querer se indispor com seu dono, permaneceu calado até o fechamento desse post.

Lançado ano passado lá fora em uma minissérie de seis edições pela Image Comics (mais conhecida atualmente como “Nova Vertigo” ;>) ), Nameless abre a história com Xibalba (o “local do medo” na mitologia maia), um gigantesco asteróide em rota de colisão com a Terra. Como se isso não fosse problema suficiente, o asteroide, de quilômetros de extensão, tem um símbolo místico esculpido em sua superfície, e já neste primeiro momento percebe-se que não se trata de um fenômeno tão natural ou aleatório quanto possa parecer a princípio.

Acontece que Xibalba é um fragmento do planeta perdido Marduk, o quinto planeta de nosso sistema solar, originalmente localizado entre Marte e Júpiter, e destruído há 65 milhões de anos no fim de uma guerra cósmica entre os habitantes de Marduk e “deuses” extradimensionais, imensamente poderosos, que repudiam todas as formas de vida (Olha os “Arcontes” de “Os Invisíveis” de novo aí, gente!). Uma guerra que ficou marcada em nosso inconsciente coletivo e que permanece registrada em nossa memória genética, de tão devastador que foi este evento, uma guerra entre o bem e o mal. Um ocultista freelancer conhecido apenas como “Sem nome” (porque conhecer o nome de algo é ter poder sobre aquilo. Um princípio básico da magia, que John Constantine, por exemplo, aprendeu amargamente em Newcastle) é recrutado por um consórcio de bilionários futuristas para uma missão desesperada. Junto com outros especialistas em diversas áreas, empreendem uma expedição ao asteroide para evitar a catástrofe que se aproxima, e no processo, desvendar seus mistérios, a proverbial curiosidade que matou o gato, e ao que parece, vai levar toda a humanidade junto.

 
Na dúvida, apele pros mitos de Cthulhu!

 À medida que se aproxima da Terra, Xibalba demonstra um domínio psíquico sobre todos em nosso planeta e também sobre os astronautas que estão a caminho de explorá-lo. O protagonista sem nome, como nós, leitores, é incapaz de distinguir pesadelo de realidade, e o efeito que essa narrativa provoca é desorientação, beirando o desconforto.

 
Alguém aí com saudades de “Crossed”???

A partir daí, a expedição acaba despertando forças terríveis, mais precisamente um refém daquela guerra travada há milhões de anos, uma das criaturas, ainda aprisionada. A destruição do planeta Marduk foi o que assegurou o fechamento da passagem entre o nosso universo e o dos “deuses”. A única criatura do lado de lá que restou em nosso universo, jaz aprisionada no asteroide Xibalba, mas não completamente adormecida, uma criatura incorpórea, de poder imensurável, imortal, onisciente e onipotente. Um ser que poderíamos chamar de… DEUS.

E nós estamos presos neste universo, sozinhos com Ele…

 
E dá-lhe referências ao Lovecraft….

Seria muito tentador, com base na sinopse, reduzir Nameless a um mix de “Armageddon” + “Gravidade” + “O enigma do horizonte”, mas como é uma HQ da grife Grant Morrison, nada é o que parece ser na primeira leitura e rótulos superficiais e reducionistas tornam-se inúteis para “colocar na caixinha” esta excelente HQ.

 
Grant Morrison escolhe uns lugares estranhos pra guardar o frasco de desodorante…

O próprio Morrison comentou, à época do lançamento da HQ que a história enveredaria por um tom pessimista e visceral, uma declaração de desprezo pela espécie humana, bem diferente do clima heroico e otimista que o autor já nos ofereceu em obras como “Grandes astros – Superman” ou “Happy”, por exemplo. Nas palavras do próprio autor:

Uma perturbadora viagem para os limites sem esperança do niilismo e da crueldade cósmica (…)

Nos meus quadrinhos de super-herói, eu tendo a ser uma líder de torcida do espírito humano, mas Nameless me dá a rara oportunidade de articular um longo e sarcástico desprezo pela nossa espécie, com suas egoístas e sentimentais ilusões suicidas, e sua ganância.”

Nameless está para “Providence” assim como “Pax Americana” está para “Watchmen”. Eu explico: para os amiguinhos que curtem uma polarização, é notória a rixa entre o barbruxão Alan Moore e o carequinha Grant Morrison (na época ainda com seu corte de cabelo estilo Beatles), cujo pivô foi um Roteiro de Miracleman – que aliás, finalmente viu a luz do dia e chegou a sair aqui esse ano pela Panini no especial Miracleman Anual – que fez Moore dar um chega pra lá em seu aspirante a colega, na época. Esse ressentimento pela desancada de Moore à pessoa de Morrison parece refletir no trabalho e na escolha de temas do autor. Assim como ele aproveitou para escrever sua própria versão de “Watchmen” no Capítulo “Pax Americana” da minissérie “The Multiversity”, agora ele envereda pelo horror cósmico com Nameless, mais ou menos na mesma época que Moore lançou sua própria minissérie/carta de amor ao horror Lovecraftiano, “Providence”, pela Avatar Press. Coincidências? Claro que sim! Afinal o universo é regido por puro caos e não há um propósito definido para nada! Rsss

De minha parte, acho tudo isso uma grande bullshitagem. Os dois têm espaço garantido em minha estante (e em meu coraçãozinho negro kkkk). Moore e sua maestria como contador de histórias, assim como Morrison, também se mostra pleno de recursos narrativos que ajudaram esta mídia a crescer, dialogar com seu tempo e dar seus respiros ao longo dos anos.

Claro, como todo texto de Morrison, Nameless está recheado de referências obscuras, que exigem do leitor mais ávido, aquele que quer tirar aproveitamento máximo do trabalho, uma pesquisa paralela para se inteirar a respeito de termos e conceitos que o escocês maluco joga pra amarrar sua história. Conceitos como os mitos de Lovecraft, alfabeto Enoquiano, mitologia maia e polinésia, a cabala, e o mais interessante de tudo, feminismo! No apêndice da história, ele expõe e explica várias passagens da HQ, o que ajuda a clarificar muita coisa e dar pelo menos um ponto de partida para pesquisas mais aprofundadas. Mais uma vez citando Morrison:

“Na filosofia Gnóstica, Sofia ou Sophia (“sabedoria”) representa a fagulha de ignição do princípio divino feminino, aprisionada no universo material falsificado de uma consciência demiúrgica insana conhecida como Sabaoth, Ialdabaoth ou em alguns casos Samael, o deus cego. Este senhor da lama (matéria) delirante, desaprovador e ciumento é o ser a que tradicionalmente nos referimos como ‘Deus’.”

Sobre o significado da cena final da mini série, Morrison tira o véu da metáfora:

(…) Aqui vemos Maat, a Filha da Verdade, assumindo sua ascendência e tomando o controle das energias do Aeon, finalmente pondo um fim à miséria de seu irmão louco e belicoso.

Basicamente, esta HQ inteira é uma convocação às garotas para se erguerem, matarem o arquétipo de rock star-super herói-guerreiro e salvarem o mundo!”.

Isso pode distrair e até espantar leitores incautos, aqueles que desconhecem o teor e o direcionamento do trabalho do Grant Morrison. O fato dele usar muitas abstrações e o intervalo sonho/realidade, sempre entrecortado, como se fatiado e disposto em camadas ao longo dos capítulos, para evidenciar que a percepção do tempo para “Deus” não se dá da mesma forma que a percepção humana pode ser confuso até mesmo para os iniciados, o que exige uma segunda leitura a fim de organizar todo esse caos. Assim, esses recursos não utilizados habitualmente na maioria das HQs podem confundir e assustar quem está apenas atrás de uma história de terror. Mais hermético, impossível. Mas é assim que Morrison gosta. E nós aqui na Zona também.

Enfim, para os que estão acostumados ao estilo do Morrison de narrativa, vocês sabem onde estão se metendo e vai ser mais uma viagem divertida, e muito bem amparada por um artista muito detalhista e competente. Chris Burnham – que trabalhou anteriormente com Morrison em “Corporação Batman” – se equipara a monstros como Frank Quitely e Geoff Darrow. MAS ATENÇÃO! UM ALERTA AOS SENSÍVEIS: a arte de Chris Burnham, formidável, alcançou aqui, amparada no roteiro de Morrison, níveis de perversidade, grafismo e gore só vistos antes em “Crossed”, de Garth Ennis. Não estou exagerando. Estejam avisados.

 
Corporação Batman, trabalho anterior da dupla Morrison / Burnham

 

 
Ouch! Isso deve doer…

 

 
Promoção do ZN: encontre o Mickey Mouse e ganhe uma mariola! (Promoção válida enquanto durarem nossos estoques)

 

 
Gore, gore, gore…

No mais, tudo vai ficar bem. Pode confiar. Não, não olhe pra lua agora, tudo vai ficar bem….

Texto gentilmente cedido pelo blog Zona Negativa.

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