RESENHA | ‘ROVER RED CHARLIE’, de Garth Ennis e Michael Dipascale, ou ‘Mad Rex – Dentada da Fúria’

Imagine uma HQ pós apocalíptica escrita por Garth “Preacher-Hellblazer-Justiceiro” Ennis. É, eu sei que ele já nos deu várias (ótimas!) histórias dentro desse gênero antes: Chronicles of Wormwood, Apenas um Peregrino, Crossed, até mesmo o especial “Justiceiro – O fim”. O que estas HQs tinham em comum, além de sempre culminarem na destruição da sociedade, dos costumes e de tudo que conhecemos? O ponto de vista era sempre o do ser humano (mesmo o anticristo Danny Wormwood em “Chronicles of Wormwood” era demasiadamente humano para uma cria de Satanás em pessoa). Mas com esse tema um tanto quanto esgotado na cultura popular desde os últimos anos da guerra fria, quais histórias restavam contar, que rumo faltava ser tomado para termos uma HQ considerada inédita dentro do gênero? Qual era a abordagem a ser feita, a perspectiva a ser explorada, o ângulo nunca antes pensado em uma história de “fim do mundo”? Ennis respondeu a esta pergunta escrevendo Rover Red Charlie, uma minissérie publicada pela editora americana Avatar Press em 6 edições, em parceria com o artista Michael Dipascale, onde vislumbramos mais um possível fim do mundo, porém dessa vez pelos olhos de três cachorros de estimação, os três protagonistas que dão nome à minissérie.

A história gira em torno do trio de protagonistas, Rover, um beagle com “sotaque“ britânico; Red, um golden retriever; e Charlie, um border collie que tinha a função de cão guia antes da grande tragédia. Os três são colhidos em meio a um evento apocalíptico não definido (ou pelo menos não compreendido pelos cães, e portanto incompreensível para nós, que estamos de carona no ponto de vista dos animais durante toda a história), onde os “alimentadores”, como os cachorros chamam os humanos,  são tomados por um frenesi assassino – bem semelhante ao que vemos em Crossed, outra mini série de Ennis – matando-se uns aos outros. Nesse cenário infernal, sem compreender porque o mundo está se despedaçando em fogo, sangue e ira, e seus companheiros bípedes tomados pela loucura, os cãezinhos precisam superar obstáculos perigosos, como todo o caos acarretado pela situação, ataques de traiçoeiros gatos, envenenamento radioativo, e o principal deles, Hermann, um buldogue gigantesco que persegue nosso bravo trio até o fim em busca de vingança. Já que não conseguem encontrar nenhum “alimentador” que não tenha enlouquecido, Rover, Red e Charlie decidem pôr as patinhas na estrada, sempre na direção onde o sol se põe, em busca do “grande respingo”, como os cães chamam a costa do Oceano Pacífico, o refúgio do apocalipse, onipresente em histórias do gênero, o tal “lugar melhor”, para fugir de todo o horror.

 
Quase uma revisitação de “Crossed”…
 
CAOS!!! HORROR!!! DESTRUIÇÃO!!!! TOTÓ!!!!

Essa abordagem sessão da tarde, de “história-de-animais-de-estimação-perdidos-que-precisam-encontrar-o-caminho-para-casa” também não é algo inédito em HQs adultas, vide o sensacional “WE3”, do duo Grant Morrison/Frank Quitely, uma fábula sci-fi adulta sobre a pureza inerente em todos os seres vivos, com exceção do homem, o grande conspurcador da natureza e da criação em geral, com sua ferramenta mais terrível: a ciência, sempre usada para os fins mais abomináveis possíveis. Tanto em “WE3” quanto em Rover Red Charlie, ao optar por dar a capacidade de enxergarmos a comunicação entre os animais verbalmente, os dois autores optaram por emular ao máximo a personalidade inerente de cada animal, ou seja, você lê os balões com os diálogos em inglês, porém, não confunda isso com uma tentativa de antropomorfização por parte dos autores: os cães ainda cheiram os rabos uns dos outros, os gatos continuam traiçoeiros e desconfiados e as galinhas burras e assustadas. Não há uma tentativa de humanizar os animais como em uma fábula de La Fontaine. As palavras podem ser humanas, mas o processo de cognição ainda é o de um cão, ou de um gato. O artista Michael DiPasquale acertou em sua decisão de não cartunizar as expressões faciais dos cães, o que respeitou a estrutura do roteiro de Ennis. Folhear Rover Red Charlie e ver seus desenhos realistas é meio como ver a quadrinização de “A incrível jornada”, da Disney, ou todos os seus genéricos, porém não se engane: um exame mais detalhado da HQ mostra o teor adulto da história, e toda a violência, sangue e mutilação de uma HQ da “Grife Garth Ennis”. A edição encadernada tem uma introdução de Alan Moore bem interessante, onde ele discorre brevemente sobre diferentes HQs que têm animais como seus protagonistas e seus respectivos diferenciais narrativos. Ótimo texto. Poderia ser mais extenso, mas talvez o barbruxão estivesse com preguiça no dia em que o escreveu. Ou pode ser ainda que estivesse finalizando mais um volume de “A Liga Extraordinária”, ou talvez nos retoques finais de “Jerusalém”, seu romance com um milhão de palavras, que vai ser maior que a bíblia. Assim sendo, está perdoado rs.

 
Aí você reclama “Ãin, uma HQ do Ennis sem sexo…” e eu te repondo:
TOMA TEU SEXO ANIMAL, FERA!!!

Apesar de não conviver com um cão em minha casa há quase uma década, sempre enxerguei a relação entre uma pessoa e seu animal de estimação não como uma relação de posse, por isso o termo “dono” sempre me foi estranho para designar essa parceria. O relacionamento de um ser humano que escolhe compartilhar sua vida com um animal não difere para mim de uma amizade ou de um parentesco, pois há afeto envolvido em qualquer uma destas situações. A objetificação de um animal de estimação é absurda e me pergunto quanto tempo vamos levar para mudar esta forma de pensamento. Atitudes do tipo só confirmam a máxima de que o ser humano é o animal mais f*&%#o da criação…

 
Bem, talvez o segundo mais f@#$%o….

Se quiser sair da mesmice por algumas horas, Rover Red Charlie é a pedida, seja você amante de cães, gatos, iguanas, cacatuas, sapos, ratos…..

 
Mondo cane.

Texto gentilmente cedido pelo blog Zona Negativa.

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