HomeGeekRESENHA | SUPERMAN – ENTRE A FOICE E O MARTELO, ou ‘Superman Comunistinha de Iphone… Vai pra Cuba!!!’

RESENHA | SUPERMAN – ENTRE A FOICE E O MARTELO, ou ‘Superman Comunistinha de Iphone… Vai pra Cuba!!!’

Nascido da definição do super-homem de Nietzsche (da mesma forma que surgiram Miracleman e SHAZAM. Leia Assim Falava Zaratustra, por exemplo, e comprove), Superman é um dos personagens mais complicados que existem para se obter êxito em criar boas histórias. Ele é muito mais um conceito que apenas músculos e força. É a perfeita definição de o que é um super herói. Infelizmente nem todos os autores conseguem captar sua essência e acabam, por muitas vezes, transformando-o em um brucutu que é somente um amontoado de músculos, força bruta, descerebrado e sem nenhuma virtude. Ver o personagem quebrando o pescoço de Zod, matando o Coringa ou virando uma espécie de motoqueiro badass, é quase um crime contra tudo o que ele representa.

Me recuso a falar sobre isso
Ou isso…

Felizmente, de tempos em tempos surgem umas histórias que conseguem captar o personagem em toda sua essência: Grandes Astros Superman (uma história fantástica, que é na verdade, uma declaração de amor do Grant Morrison ao personagem); Superman, Paz na Terra (em que ele vê que, mesmo com seus superpoderes, não pode solucionar alguns problemas comuns e mais humanos do nosso dia a dia); Reino do Amanhã (apesar de não ser uma história só do Superman, sua presença imponente, mostra quem ele é e o que representa) e Entre a Foice e o Martelo, são alguns exemplos mais famosos.

Para quem acreditava que o Superman comunista era somente uma skin do jogo Injustice – Gods Almong Us, refere-se, na verdade, a uma história auto contida que fazia parte da linha “Elseworlds” (que conhecemos aqui como “Túnel do Tempo”), e apresentava histórias fechadas que não faziam parte do “universo e cronologia regulares” dos heróis, dando mais liberdade aos autores para reimaginar a mitologia e o universo desses personagens.

Por aqui, recebemos uma enxurrada de histórias do Batman, como: “Batman – O Corsário”; “Tempestade de Sangue”; “Um Conto de Batman – Gotham City 1889 “, “Batman & Hpudini – A Oficina do Diabo”, etc.

Enquanto Philip K. Dick, com seu “O Homem do Castelo Alto“, imagina um mundo em que os países do eixo venceram a segunda guerra mundial, Mark Millar, em Entre a Foice e o Martelo imagina como seria se, ao invés de cair nos Estados Unidos, a nave com o pequeno Kal-El chegasse à terra com 12 horas de diferença, caindo na Ucrânia, durante o regime comunista da antiga União Soviética.

O escocês Mark Millar (Nemesis, Superior, O Legado de Jupiter) é o autor de quadrinhos que teve mais obras adaptadas por Hollywood. Suas historias normalmente parecem ter saído de uma tela de cinema: Os Supremos (que serviu de base para o filme dos Vingadores); Old Man Logan (que vai servir de base para o próximo filme do Wolverine), Guerra Civil, Kick-Ass, O Procurado e Kingsman.

I’M RICH, BABE

Lançada em 2003, essa obra só pôde sair pois não tínhamos mais a presença da ameaça comunista (e já havia sido criado um novo vilão mundial a ser combatido). Com o fim da segunda guerra mundial, uma outra guerra se iniciou e que permeou boa parte da segunda metade do século passado. A divisão do mundo e a disputa militar, política e econômica entre Estados Unidos e União Soviética, beirava a uma guerra nuclear que extinguiria a vida no planeta. O mundo estava em ebulição.

Durante a guerra fria, ter algum tipo de discussão sobre socialismo e capitalismo era quase proibitivo. Seja pelo assunto tabu, que despertava “paixões” de um lado ou de outro; seja pela falta de conhecimento dos principais pontos de vista de cada regime e seus reais interesses (ainda bem que hoje temos acesso a todo tipo de informação, nos proporcionando discussões racionais, sadias, avançadas e embasadas).

Arte de Caio Oliveira

Para quem se interessa pelo assunto [Costinha Mode On], aproveito para dar uma dica de série que retrata bem aquele período: Deutschland 83. Uma série alemã de suspense e espionagem que se passa no início dos anos 80, no período pré-Gorbachev. Diferentemente do que estamos acostumados a ver nas produções americanas, a sensação do perigo de um ataque nuclear é sentida de uma maneira diferente e muito próxima. Afinal de contas, o “perigo mora ao lado”, literalmente. Vale muito a pena! [Costinha Mode Off].

Na HQ, a descoberta de um super homem alienígena comprometido com os ideais comunistas, causa uma sensação de terror em boa parte de população. O anúncio do governo soviético é alarmante:

Superman: Estranho visitante de outro mundo, que pode mudar o curso de poderosos rios, dobrar o aço com as próprias mãos… e que, como campeão dos proletários, trava uma interminável batalha por Stalin, o socialismo e a expansão internacional do Pacto de Varsóvia.”

Inicialmente, o Homem de Aço só quer ajudar as pessoas, preferindo ficar longe das implicações políticas; afinal de contas, ele é só mais um proletário. Após a morte de Josef Stalin, Superman acaba se vendo obrigado a assumir o controle do partido.

Após duas décadas de domínio e controle mundial do “Homem do Amanhã da Rússia”, quase todos os países do mundo se tornaram seus aliados. Apenas dois ainda resistem e mantêm o sistema capitalista, mesmo estando à beira de um colapso fiscal e social.

Nesse cenário, vemos um Lex Luthor que, após ver o surgimento daquela figura tão poderosa, passa a ter somente um propósito na vida: derrotar o Superman. O homem mais inteligente da terra, não pode ter sua importância diminuída por um ser de outro planeta. Para isso, ele não mede esforços. Com o apoio financeiro do governo americano, Luthor cria vários seres na tentativa de conseguir exito em seu objetivo. Bizarro, Parasita e Metallo são só algumas das “armas” criadas com esse fim. Na verdade, o que ele deseja não é apenas derrota-lo; ele quer SER o Superman. Apesar dos constantes embates ideológicos entre os dois, existe uma relação de admiração mútua. A vida dos dois nunca esteve tão ligada.

Lex Luthor, interpretado por Sean Connery

Como o Grande Irmão, da obra de George Orwell, Superman possui o domínio total sobre tudo que acontece. Seus opositores e os que incitavam a desobediência, sofrem uma espécie de lobotomia e são transformados em “robôs” a serviço do herói. Nesse sistema absolutista-totalitário imposto por ele, Batman é a força do caos, agindo como um anarco-terrorista contra o regime, sendo uma antítese ao que o Homem de Aço representa e defende.

Enquanto isso, a Mulher Maravilha (que nutre um amor secreto pelo Homem de Aço), deixa Themyscira, se converte ao comunismo e passa a lutar ao lado do Superman pela igualdade no mundo dos homens.

” – Então, como estava a América?”

” – Enojante, Superman. Simplesmente enojante. Estamos em 1978 e ainda há crianças dormindo nas ruas por lá.”

As páginas estão recheadas de easter eggs. É muito divertido ficar procurando por eles ao longo da história. Referências ao filme do Richard Donner; a Morte do Superman; a Sala de Justiça do desenho dos Superamigos e até o Elvis, podem ser encontrados sem muitas dificuldades. Depois de ler a revista, você pode voltar as páginas e ficar só lendo as figuras.

Não dá para ignorar o excelente trabalho do desenhista Dave Johnson e do colorista Paul Mounts. Eles conseguiram captar a essência da ambientação na Rússia. A escolha das cores e do traço, nos lembram os cartazes de propaganda do partido soviético da época da guerra fria.

Desconstruir um ícone e, ainda assim, mantê-lo um ícone é uma tarefa complicada. A forma com que a história se desenrola em nenhum momento nos faz deixar de acreditar que aquele é o Superman que conhecemos. Não só ele, mas todos os personagens tem o seu arco (mesmo que seja curto) e sua importância. Confesso que me empolguei bastante com a aparição do Hal Jordan e o momento do Juramento dos Lanternas Verdes.
A história passa longe do maniqueísmo a que estamos acostumados. A divisão entre bem a mal; certo e errado; vilões e mocinhos; fica tudo em segundo plano. São indivíduos agindo de acordo com suas convicções; fazendo suas escolhas da maneira que acreditam ser a correta e, mesmo não concordando, ao se pôr no lugar do personagem, é possível entender suas atitudes. Esse tipo de profundidade não costuma ser muito comum nas HQs do mainstream.

Com um final que nos pega de surpresa, ao fim da leitura vemos que não estamos simplesmente lendo numa ótima história em quadrinhos. Estamos diante de uma excelente história de ficção científica, sem deixar nada a desejar. Me senti extremamente culpado por ter esquecido do quanto essa história é boa.

O motion comic de Red Son. Obrigado. De nada.

A Zona Negativa agradece ao Caio Oliveira pela arte do Bat-batedor de panelas com a camisa verde e amarela. Afinal de contas, a nossa bandeira jamais será vermelha… a não ser que venha acompanhado de listras azuis e estrelas brancas para combinar (ironia aqui pra quem não entendeu).

Agora faça uma pausa na sua leitura de O Capital, agarre sua garrafa de vodka, estacione seu Lada no meio da Praça Vermelha e acompanhe o camarada Superman sobrevoando o céu de Moscou.

Texto gentilmente cedido pelo blog Zona Negativa.

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