RESENHA | THE BOJEFFRIES SAGA, de Alan Moore e Steve Parkhouse, ou ‘Meu avô é um deus Lovecraftiano!’

A maioria dos leitores de quadrinhos, após um contato inicial com o trabalho de Alan Moore, (“O Rouxinol de Northampton” para os íntimos ou “O Autor original” para os desafetos rs) acaba, por razões óbvias, se encantando com a qualidade de seus trabalhos e não raro, enveredam em uma pesquisa arqueológica para escavar trabalhos anteriores do bruxo (não fazemos isso com todos os autores, diretores e músicos de que gostamos???). Em verdade vos digo, essa brincadeirinha arqueológica em torno da obra do Moore pode render ótimas surpresas, como se pode conferir em The Bojeffries Saga.

Alguns anos antes da tal “Invasão Britânica”, a estratégia iluminada da DC Comics de olhar do outro lado da poça do atlântico e importar talentos do Reino Unido para dar um revamp em alguns de seus personagens de segunda linha, já sem brilho (na verdade, alguns sem brilho desde sua criação, mas nada que um Moore, Morrison, Milligan ou Gaiman não resolvam, porque, meus amigos, não existe personagem ruim, o que existe é a mulher que não conhece os produtos Jequiti! – ou algo assim), Moore já batalhava no mercado de HQs Inglesas. Começou como cartunista na revista musical Sounds, e logo em seguida dedicou-se exclusivamente como roteirista em títulos como a Doctor Who Weekly, Marvel UK, 2000A.D. e a Warrior, onde produziu V de Vingança, Miracleman e  as primeiras histórias de The Bojeffries Saga (em 1983, contudo outros arcos seriam produzidos depois, mas com o fim da Warrior, estes foram publicados em diversas revistas, sem regularidade definida), com arte de Steve Parkhouse, um dos pilares das HQs britânicas, com mais trabalhos no currículo do que eu disponho de espaço aqui para listar.

Alguns anos depois, em 2008, Moore resolveu retomar a história do clã Bojeffries, enquanto dava um break dos roteiros de “A Liga Extraordinária”, HQ que produz em conjunto com Kevin O’Neil, a fim de dar uma conclusão apropriada, uma história de despedida, por assim dizer.

Uma HQ de humor, algo raro na bibliografia de Moore, The Bojeffries Saga nos traz o dia a dia da família Bojeffries, uma espécie de Família Monstro residente num bairro de casas populares em Northampton, típicas de classe operária britânica, as famosas council houses. Seria um plot banal, se não fosse por um detalhe bizarro: alguns membros dessa família suburbana “banal” nem humanos são! A saber: Jobremus Bojeffries, o patriarca da família; Ginda Bojeffries, a filha, um brucutu ameaçador; Reth Bojeffries, irmão de Ginda; O bebê, que produz energia atômica suficiente para iluminar a Inglaterra e o País de Gales; Tio Raoul Zlüdotny, um lobisomem aparvalhado que adora os poodles da vizinhança (no sentido gastronômico mesmo); Tio Festus Zlüdotny, um vampiro inepto e Vovô Podlasp, uma criatura muito antiga, amorfa e poderosíssima que quando irritado, brada palavras como “Y-YUG FNATAGH! N’GAR! YULLOTH RHUGAH! H’RRUN SHLUGATH! IËI CTHLUR-XOTEP”, numa ostensiva homenagem ao vocabulário profano inventado por H. P. Lovecraft, escritor do qual Moore é admirador confesso.

 

Vovô resolve o problema do aluguel atrasado.

Como toda boa sátira, a família Bojeffries foi apenas uma ponte para apontar e rir da feiura cotidiana da cinzenta Inglaterra dos anos da Dama de Ferro, o governo Tatcher, com um espírito anárquico de um jovem Alan Moore querendo se divertir…. e contar histórias, como o infeliz destino de Trevor Inchmale, um cobrador que examinando registros, descobre que os Bojeffries não pagam o aluguel há mais de um século, ou a saída à noite do tio Raoul, que graças a um colega de trabalho com uma agenda velha, confunde as fases da lua, o que dá a Raoul a certeza de que ele pode sair de casa para uma social sem se transformar, mas adivinhem? É noite de lua cheia! Ou as desventuras românticas de Ginda Bojeffries e até mesmo uma ópera! Sim, uma história “cantada” em formato de ópera pelo “elenco” da HQ.

 
Todo o poder de sedução de Ginda Bojjeffries…

A história final, escrita em 2008, no estilo de documentário para a TV, algo como “Por onde andam os Bojeffries?”, é hilariante e, pasmem, acaba numa edição de Big Brother Inglaterra!

Ainda não lançado no Brasil (mas não desanimem, perceberam como nos últimos 3 anos saíram TONELADAS de material do Moore por aqui, muita coisa inédita?), o encadernado publicado em conjunto pelas indies Top Shelf (EUA) e Knockabout Comics (ENG), compila TODAS as histórias da família Bojeffries criadas pela dupla, inclusive a derradeira de 2008, tão ácida com seu contexto sociocultural quanto as originais o foram.

 
Uma ópera light… huh???

Uma rara oportunidade de ver os primórdios do barbruxão, em um tempo em que ele ainda não era o Mago Supremo, mas já ensaiava seus primeiros passos rumo a narrativas que revolucionariam a mídia, mas isso é uma história pra outro dia, crianças, e eu vou voltar pro meu caixão porque já está amanhecendo…  CHEERS!!!

Texto gentilmente cedido pelo blog Zona Negativa.

Comentários do Internauta

Comentário(s)

Compartilhe