CRÍTICA | ‘T2 Trainspotting’ se apoia na nostalgia, mas mantém a qualidade visual inventiva e bem editada

Há uma inquietação curiosa que assola o fã de Trainspotting. O cultuado filme de 1996 não tinha pretensão de levantar bandeiras pró ou anti drogas, mas apenas retratar uma geração nada ortodoxa que entendia que a vida não passava de uma série de decisões vazias que resultarão, cedo ou tarde, no mesmo lugar comum: a morte. Assim, a escolha óbvia era virar as costas pra estabilidade monótona de um futuro socialmente aceitável e abraçar o êxtase do momento. O comportamento inconsequente e autodestrutivo do grupo formado por Mark Renton (Ewan McGregor), Sick Boy (Jonny Lee Miller), Spud (Ewen Bremner) e Bigbie (Robert Carlyle) não era o que cativava o espectador, mas sua contrariedade à norma imposta. Porém, cada um deles almejava, à sua maneira, algo que preenchesse aquele vazio existencial que nenhuma droga lícita ou ilícita, ou bem material, ou sentimento, etc, era capaz. E foi ali, naquela jornada ácida, cômica e dramática, que Trainspotting tornou-se um marco, criando uma base de fãs leais que se relacionavam, de alguma forma, com os problemas dos personagens. Assim, a chegada de T2 Trainspotting reaviva essa antiga inquietação.

CRÍTICA #2 | ‘T2 Trainspotting’ não é tão grandioso quanto seu antecessor, mas igualmente digno

Ao olhar para importantes momentos do passado, evocamos as mais diversas lembranças, a depender do como estamos no momento. E em T2, essas lembranças resultam numa nostalgia tanto dos personagens, quanto do público. “Nostalgia. É por isso que você está aqui”, diz Simon — outrora Sick Boy — a Mark Renton, com razão.

Cada membro do grupo está numa situação diferente, consequência de seus respectivos passados, sem contato um com o outro. Mark está de volta à cidade e resolver se retratar com o grupo. Simon tenta ganhar a vida extorquindo clientes que usam seu pequeno prostíbulo, enquanto tenta manter sua relação quase unilateral com Veronika (Anjela Nedyalkova). Spud está sofrendo com as consequência de 15 anos de vício, sem conseguir manter seu emprego ou contato com a família. Já Bigbie está preso, mais agressivo do que nunca, e tentando sair da prisão. A chegada de Mark torna a reunir o grupo – exceção de Bigbie – que volta a se deparar com as estranhas situações que os acompanham.

Toda inventividade visual do diretor Danny Boyle continua presente, assim como a edição ágil, dinâmica e precisa que compunha Trainspotting. A estética que preenche a obra continua sendo um elemento determinante dentro da narrativa. Freeze frames, ângulos holandeses, projeções no cenário, legendas e alguns outros, somam às suas respectivas cenas, além de criarem um frescor visual bem-vindo àquela realidade melancólica. Além disso, cada técnica dessas resgata a lembrança do primeiro filme, o que é gostoso de ver. Porém, há um excesso que prejudica parte da narrativa.

As muitas amarras com o longa de 1996 são constantes. Boa parte é justificável já que o filme busca refletir sobre as ações daquela geração e seu lugar nos dias atuais. T2 cria paralelos exatos com vários momentos do passado (como o início e o final, ambos focados em Renton, um contrapondo o outro) a fim de fortalecer os laços nostálgicos. Mas a impressão que fica é a história está mais preocupada nessas conexões do que na sua própria narrativa. Assim, é determinante que o expectador tenha assistido ao filme anterior – e se quiser entender todas as conexões e referências, é melhor que tenha assistido- o há pouco tempo.

T2 ainda possui seu característico humor negro, mas menos presente. Boyle consegue trabalhar bem com a expectativa do público (como numa cena do banheiro, onde dois personagens estão prestes a se encontrar), dando bons momentos cômicos ao filme. Porém, assim como os personagens, o público cativo também envelheceu. Por isso, a inconsequência imberbe de outrora deu lugar às limitações e preocupações da idade, onde as possibilidades aparecem em menor quantidade, e a experiência limita as oportunidades. O tom do filme é considerável menos juvenil e mais dramático.

Essa mudança tônica dá uma ritmo mais lento ao longa, mesmo que a edição, ágil e dinâmica, tente manter o ritmo frenético característico. Principalmente no segundo ato, após a reintrodução dos personagens principais, o expectador sente o tempo.

O retorno dos personagens foi feito com maestria pelos respectivos atores. Sem perder suas características, Renton, Simon, Spud e Bigbie continuam com ótima dinâmica. Além disso, cada ator encontrou um ponto certo na atualização de seus papéis. Cada personagem carrega algo que o marcou nos últimos anos. Enquanto Renton sente-se deslocado ao voltar para sua cidade; Simon guarda grande rancor de Mark; e Bigbie está ainda mais agressivo e com sede de vingança; Spud rouba a cena com um entendimento lacerante de tudo que perdeu pelo vício. O personagem carrega uma dramaticidade estranha em seus trejeitos cômicos. Um dos grandes méritos do roteiro de John Hodge, e graças ao ótimo trabalho de Bremner.

A nostalgia não aparece apenas nas conexões narrativas e visuais, mas dentro da própria história, onde os personagens, obcecados com o passado, param constantemente para falar e rememorar o mesmo. Há um momento onde se discute, rapidamente, a gentrificação da cidade onde vivem, que coloca todo esse apego sob uma interessante perspectiva: o que o “velho” pode fazer numa sociedade nova, sem interesse pelo passado? Nesse ponto, ambos filme se assemelham no discurso: em 1996, aquela geração era nova demais para o momento. Agora, ela é velha demais. De qualquer maneira, trata-se ainda de uma latente sensação de deslocamento.

Isso também entra em questão quando Mark refaz seu discurso “choose life”. Porém, há um novo conteúdo compondo o momento, que é um dos pontos altos de T2. Sua nova e mais moderna sua visão pelo mundo demonstra um doloroso senso de não pertencer. Eram nas drogas, no rito do grupo, que as relações aconteciam, onde a vida iniciava e acabava. Agora, numa sociedade moderna, “onde os relacionamentos viraram dados”, diz Renton, “onde você escolhe o Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat”, nota-se que as variáveis de escolha mudaram, mas não o resultado. O deslocamento de 20 anos atrás ainda permanece.

Conclusão

T2 Trainspotting se apoia demais na nostalgia, o que influencia na sua própria execução e liberdade narrativa. Porem, o filme mantém a qualidade visual inventiva e bem editada. As boas atuações de McGregor, Bremner, Carlyle e Miller dão ótima dinâmica ao grupo que, passados 20 anos, ainda tem algo bastante relevante para falar sobre nossa sociedade. Embora a relação com o primeiro longa seja uma amarra e obrigação, T2 faz um bom trabalho, mesmo que não esteja à altura cultuado do clássico de 1996. O filme estreia nesta quinta-feira, 23 de março.

*Texto publicado originalmente no site “O SETE”, parceiro do BLAH CULTURAL

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FICHA TÉCNICA:

Título original: T2 Trainspotting
Direção: Danny Boyle
Elenco: Ewan McGregor, Robert Carlyle
Distribuição: Sony
Data de estreia: qui, 23/03/17
País: Reino Unido
Gênero: drama
Ano de produção: 2017
Duração: 117 minutos
Classificação: 16 anos

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<p>Jornalista amante de cinema, de rock, de cultura pop e de Bloody Mary. Além de colaborar para o Blah Cultural, é idealizador do osete.com.br.</p>